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O alvo sobre as costas do médico: A ameaça crescente de violência




A classe médica costumeiramente é estimada pela sociedade, por sua dedicação de anos à própria formação e doação diária ao cuidado dos pacientes. Entretanto, de maneira indignante, temos assistido a uma crescente onda de violência a esses profissionais em seus ambientes de trabalho, principalmente na assistência pública, seja o pronto socorro, o hospital ou a unidade básica de saúde. Em pesquisa publicada pelo CRM-PR no ano de 2022, verificou-se que nada menos do que 30% dos médicos entrevistados foram vítimas de violência mais de cinco vezes.


Ainda, em estudo encomendado pelo CREMESP em 2015, averiguou-se que 64% dos médicos já tomaram conhecimento ou vivenciaram episódios violentos, sendo que a primeira causa apontada para tanto foi a demora para o atendimento médico, além de outros problemas estruturais.


Destoando da opinião de que um ideal treinamento médico acerca da amenização de conflitos e construção de uma relação médico-paciente seja a solução do panorama endêmico de violência, sustento que as responsabilidades de uma falha gestão em saúde não podem cair sobre os trabalhadores, como as suas consequências vêm caindo.

As precárias condições de atendimento ao paciente - a citar, quantidade de leitos, aparelhos, medicamentos e profissionais competentes - e para o médico, como boa remuneração regulamentação, levam a um triste ciclo vicioso: não atração dos profissionais pelo sistema público, precarização do atendimento oferecido, violência ao médico e, novamente, reafirmação do ambiente inóspito para o trabalho, a ponto de gerar abandonos de emprego e desabastecer locais de serviço.


Tão amedrontada e acanhada tem-se tornado a classe médica com o cenário, que 80% daqueles médicos abordados pelo CRM-PR não registraram boletim de ocorrência sobre as agressões sofridas, seja por medo de retaliação, demissão, desmoralização ou, confirmando o caráter conjuntural do problema, por descrença em relação às burocracias, apoio das autoridades e punibilidade dos agressores.


Ressalto que me solidarizo com as razões, compreensíveis, dos pacientes e familiares inquietos, mas garanto que as reações contra quem está na linha de frente - sejam ofensas, intimidações ou agressões físicas - são incompatíveis com a civilidade, além de mal direcionadas, já que nossos futuros pares profissionais enfrentam as mesmas dificuldades e precariedades do sistema de saúde.


O início da resolução desse cenário, ou a amenização de suas consequências, se dará pelo necessário rigor e responsabilidade das autoridades competentes.

O policiamento dos estabelecimentos públicos, a melhora da infraestrutura e da gestão dos recursos, além de especificações na legislação contra esses agressores são caminhos urgentes.


Como estudante de medicina, finalizo me compadecendo de cada médico vítima de qualquer tipo de desacato, ameaça ou violência física. Tenho a mais sincera admiração pela vocação daqueles que, apesar desse e outros diversos desafios, tecem heroicamente a prosa diária do serviço e cuidado aos seus pacientes.


A defesa de uma atuação profissional segura deve prevalecer ante a normalização da violência.

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