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Profissionalismo, educação e medicina


I – A VIDA INTELECTUAL DO MÉDICO


A Vida Intelectual como Dever Moral do Médico


Pode-se falar em uma vocação intelectual inerente à profissão médica, pois esta é uma ocupação que demanda muito em termos cognitivos, ligada em essência a uma pesada rotina de estudos, treino e prática. Contudo, a expressão Vida Intelectual engloba uma perspectiva muito mais rica e intensa do que o chamado para se aprofundar em conhecimentos específicos como o da Medicina.


No âmbito profissional, todos somos chamados à excelência, característica importante de uma vida dedicada a professar valores em um contexto de serviço ao próximo. Todos somos, por causa dessa busca pela excelência, chamados a exercer nossos talentos com responsabilidade e total empenho, e não há dúvida que um desses talentos a ser desenvolvido é o de ingressar na Vida Intelectual.


Nossa civilização ampara-se em uma visão que torna o desenvolvimento de seus talentos uma responsabilidade, um dever moral, como se pode observar há milhares de anos na famosa parábola dos talentos, na qual o próprio Cristo cobra o bom uso das capacidades de seus escolhidos (Mateus 25.14-30). Assim, somos nós também cobrados pelo uso de nossas capacidades dentro da carreira médica.


Quem usa seus talentos, se desenvolve e produz bons frutos será de regra reconhecido e recompensado. Já quem não se desenvolve, rapidamente ficará obsoleto e acabará por ser prejudicado ou penalizado, inclusive de forma ética e profissional. Dessa forma, a Vida Intelectual não é um mero acidente na história de qualquer um de nós, é parte de nosso próprio ser. Somos todos chamados a desenvolver nossa inteligência com o melhor de nossos esforços. Mas como desenvolver a inteligência? Como viver de forma a cumprir os requisitos de uma verdadeira Vida Intelectual?


Antes de tudo é preciso compreender que o desenvolvimento deve ser integral, isto é, em todas as esferas da ação humana que podem colaborar para um determinado propósito.

Poderíamos voltar a Aristóteles e lembrar das três esferas da ação humana que necessitam de desenvolvimento e que podem colaborar para a viabilização de uma Vida Intelectual: conhecimentos, técnicas e atitudes (Episteme, Tekne e Praxis).


Temos conhecimentos humanísticos e científicos que nos preparam para a Vida Intelectual, temos atitudes pertinentes à Vida Intelectual ligadas diretamente ao senso moral do ser humano e temos técnicas e práticas de estudo e aprimoramento que podem reforçar nossas atitudes e conhecimentos. Mas, antes de abordar cada um desses elementos, devemos refletir um pouco mais sobre o que é essa tal Vida Intelectual de fato.


A Causa Material da Vida Intelectual


A primeira reflexão envolve a amplitude de interesses de uma Vida Intelectual – o seu conteúdo ou causa material, como diria Aristóteles.

José de Letamendi Y Manjarrés, um médico patologista espanhol do Século XIX, dizia que o médico que só sabe medicina, nem medicina sabe de fato. Esse antigo aviso vale praticamente para todos nós, nas mais diversas ocupações.


Se observarmos a infinidade de conhecimentos que podem ser aportados por uma vida intelectual no Direito, por exemplo, imediatamente iremos questionar sobre de que adianta conhecer todas as leis, jurisprudência e pareceres se não se conhece muito acerca do ser humano e de sua imensa potencialidade? Se não soubermos que os homens podem ser vilões, santos, corajosos, covardes, revolucionários, ordeiros e caóticos? Se não conhecermos as grandes histórias que marcaram as mais diversas culturas e que nos trazem verdades atemporais sobre o ser humano e o senso de justiça?


Da mesma forma, na Medicina, do que adianta conhecer as doenças e seus medicamentos se não soubermos como sofre o ser humano? Se não pudermos ser um elemento de cura, consolo e alívio na vida de quem sofre? Se não soubermos os grandes dilemas e sofrimentos pelos quais o ser humano pode passar e como vivem na proximidade daquela etapa de nossa história tão temida e tão desconhecida que é a morte?


É preciso saber um pouco de tudo, como o filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos alertava em sua obra “A Invasão Vertical dos Bárbaros.” Não se pode cair na armadilha da superespecialização e abrir mão do senso da realidade que somente a capacidade de ligar elementos da realidade por um bom conhecimento geral pode nos legar. Um conhecimento altamente especializado e desconectado do infinito que é a realidade que nos cerca é uma forma requintada de barbárie, de ignorância.


Se quero saber Medicina, preciso também estudar e viver alguns elementos de literatura, teologia, filosofia, história, comunicação e até mesmo Belas Artes.


Por fim, ao lembrarmos do famoso Mito da Caverna de Platão, descrito no Livro VII de A República, entenderemos que aquele prisioneiro que se liberta do fundo da caverna e busca a realidade fora da escuridão pode ser compreendido como qualquer um de nós que aprende a responder ao impulso da Vida Intelectual, uma vida que nos convida a enxergar a realidade em suas múltiplas perspectivas sem máscaras, sem subterfúgios e sem camadas de confusão e manipulação. Podemos chegar assim a mais uma conclusão: a Vida Intelectual está ligada à busca pela verdade, à busca pela realidade, por meio de uma imersão em diversos conhecimentos. E para buscar a verdade, tornamo-nos escravos dessa mesma verdade, pois se a verdade que for conhecida não for obedecida, ela se torna a comprovação de nossa covardia e de nossa própria estupidez.


Eis o compromisso moral da Vida Intelectual.


Portanto, ao lembrarmos da Parábola dos Talentos, é necessário entender que há uma obrigação para cada um de nós cumprir o elemento intelectual de nossas vidas e de nossa profissão.


Causa Formal da Vida Intelectual


Nossos deveres intelectuais incluem a responsabilidade de estudar bastante, aprender a nos comunicarmos, sermos humildes e sempre abertos a novos conhecimentos e, assim, cumprirmos o antigo mandato socrático: saber o que não se sabe e, assim, conhecer-te a ti mesmo.


Se não formos extremamente sinceros e verdadeiros servos da verdade, acabaremos por mentir para nós mesmos. É necessário identificar os pontos que ainda repousam na ignorância e buscar o aprimoramento pessoal sempre, mantendo a humilde sinceridade de admitir que pouco sabemos de fato.


De forma prática, a metodologia da Vida Intelectual – ou sua forma – será caracterizada, portanto, em:

1 – Ler bem, meditando sobre o que se lê e integrando o conhecimento à personalidade;

2 – Estudar bastante, pois o conhecimento não virá sem esforço;

3 – Meditar sempre sobre a realidade que se vive, aplicando o que se aprendeu na prática;

4 – Levar a vida a sério, pois tudo o que vivemos e fazemos não será excluído da realidade, mas permanecerá como algo realizado inscrito nessa mesma realidade para sempre;

5 – Assumir a plena responsabilidade por seus próprios atos, conhecimentos e decisões;

6 – Dedicar-se a buscar a excelência, pois a mediocridade ou a preguiça intelectual constituirão sempre uma traição ao talento da intelectualidade que recebemos.


Edmund Pellegrino, médico e filósofo, ressaltou que a busca pela vida intelectual deveria ser algo aplicável em nossas vidas, algo que fosse realmente integrado à nossa experiência. O estudo da literatura e da linguagem precisa ter consequências em nossa capacidade comunicativa; o estudo da história precisa nos ajudar a buscar aquilo que é atemporal, que é verdadeiro e se manifesta ao longo de incontáveis histórias humanas; e a filosofia precisa nos ajudar a enxergar a realidade de forma mais complexa e crítica.

Dizia Pellegrino, a respeito da Medicina, que:


O que se torna imperativo é que: a medicina deve se tornar mais humana, mais infundida com o espírito dos estudos liberais e mais aberta a abordar a dicotomia metafísica entre as artes e as ciências.


A sabedoria prática (phronesis) ocupa um lugar especial entre as virtudes como a ponte entre as virtudes intelectuais – aquelas que predispõem à verdade (ciência, arte, sabedoria intuitiva e teorética etc.) – e aquelas que predispõem ao bom caráter (temperança, coragem, prudência etc.). a phronesis nos diz quando o objetivo ou o bem que nós buscamos como carpinteiros, pessoas, médicos ou o que quer que seja está em risco. A phronesis providencia algo da finalidade ou do bem almejado pelo agente ou pelo trabalho em que se está engajado. A sabedoria prática permite que tenhamos discernimento de quais meios são mais apropriados para o bem em determinadas circunstâncias.


Se soubermos qual a substância da Vida intelectual e qual a forma de se alcança-la, podemos ter uma ideia melhor da finalidade da Vida Intelectual e de quem é capaz de promover isso, as causas final e eficaz, respectivamente.


Causa Final da Vida Intelectual


A Vida Intelectual tem como finalidade o desenvolvimento e a excelência do indivíduo que a ela se entrega. O produto de dedicar-se a uma Vida Intelectual é o livre-pensador, o Spoudaios, o cidadão maduro conforme compreendido desde os tempos mais antigos, a pessoa que se tornou capaz de realmente ser responsável pelo que se é.


O objetivo é viver uma vida mais plena e cheia de propósito, por meio de uma personalidade forte alimentada por uma imaginação rica e fértil. É ser verdadeiramente inteligente e perspicaz, alcançando a sabedoria por meio do uso ético dessas capacidades.


O conhecimento da medicina, além do conhecimento da psicologia médica e das humanidades, proverá a substância para que se possa realmente ser um cidadão realizado na profissão.


Causa Eficaz da Vida Intelectual


Se sabemos onde queremos chegar, o que precisamos aprender e de que forma podemos agir, precisamos entender também quem pode promover esse crescimento pessoal por meio da Vida Intelectual.


O principal ator é, sem dúvida, o próprio médico ou estudante, pois não há aprendizagem sem o desejo de aprender. Movido pela vontade, o profissional poderá recorrer aos mestres de hoje e do passado. Há muitos grupos de estudo das Humanidades Médicas e da Alta Cultura espalhados pelo Brasil e pelo mundo, dedicados ao estudo sério.


Para quem tem dificuldades em encontrar bons mestres e amigos, há uma possibilidade de imergir na cultura de milênios e absorver as lições de Platão, Aristóteles, Salomão, Hipócrates, dos Apóstolos e dos grandes filósofos, poetas e médicos de todas as eras e todas as diferentes culturas.


Se nossa cultura hoje está permeada de informação inútil e futilidade, também está deixando à nossa disposição o legado da mais elevada cultura com uma facilidade que nenhum de nossos antepassados teve.


Navegar no universo de informação que nos rodeia é uma arte em si mesma, mas uma obrigação para os dias atuais. Nesse sentido, todos temos uma verdadeira multidão de potenciais mestres à nossa disposição.


O Conhecimento, a Ética e a Técnica da Vida Intelectual


Voltando às esferas da ação humana conforme Aristóteles, podemos então começar por abordar os conhecimentos necessários à Vida Intelectual.


Sem dúvida, as Artes Liberais – Retórica, Gramática e Lógica – são conhecimentos indispensáveis ao exercício da inteligência. Pellegrino dava três razões essenciais pelas quais as Humanidades deveriam ser ensinadas a qualquer pessoa educada e, em especial, a médicos:

1 – São veículos para o ensino das Artes Liberais;

2 – Carregam consigo um tipo especial de conhecimento que liberta a imaginação; e

3 – São fontes de prazer para o espírito humano.


Por outro lado, tais conhecimentos em um coração torpe e degenerado acabam também por somarem trevas. Se a Vida Intelectual deve ser luminosa de fato e frutificar, a busca e o exercício desses conhecimentos devem ocorrer mediante uma vida dedicada também ao elemento moral, pautada por atitudes virtuosas e por uma submissão à Verdade pautada pelo amor. Eis o elemento prático e ético da ação humana conforme Aristóteles.


Quanto às técnicas de estudo, há uma série infindável de opções e dicas, que oportunamente podem ser abordadas e desenvolvidas. Mas antes de colocar a mão na massa e exercitar de fato uma Vida Intelectual, é preciso meditar sobre o grave compromisso que se coloca diante de nós.


Forjando o Caráter por meio da Vida Intelectual


Decidir por uma vida intelectual em busca da verdade é, antes de qualquer outra coisa, uma decisão moral que irá requerer de nós uma mobilização de toda a personalidade para forjar um caráter capaz de resistir a pressões internas e externas em ceder a mentiras e falsos consensos. Uma vida intelectual sem o compromisso de se adquirir força de caráter e personalidade é uma caricatura, uma promessa que não se realizou, uma decepção ou até mesmo um escárnio.


O filósofo brasileiro Olavo de Carvalho diria que “Não há covardia mais torpe do que a covardia da inteligência, a burrice voluntária, a recusa de juntar os pontos e enxergar o sentido geral dos fatos.”


Para ingressar na vida Intelectual e cumprir nosso dever, precisamos de um profundo preparo em nossos corações e precisamos estar dispostos a enxergar a realidade em verdade, pois se nossos olhos forem trevas, que grandes trevas serão. Mas se nossos olhos e, portanto, nossa compreensão, for luz, tudo será luz ao nosso redor, mesmo nas mais desafiadoras e complexas situações de nossas vidas.


Embora a intelectualidade se desenvolva no silêncio e na solidão, nas leituras em isolamento e profunda reflexão, muitas vezes nas horas noturnas dentro de nossos quartos, quando muitos já dormem, a força de caráter deve ser forjada diariamente, na convivência com o próximo, no duro combate que vivemos na realidade, repleta de desafios, de enganos, de reviravoltas e de dificuldades diversas. E tanto o intelecto quanto o caráter dependem um do outro para que sejam completos.


Um Convite à Vida Intelectual na Medicina


Cientes da existência de um compromisso em cumprir o chamado à Vida Intelectual, todos devem estar cientes também do convite para que se desenvolvam por meio do acesso aos clássicos e à ciência. Edmund Pellegrino dizia que a Medicina era a mais científica das humanidades e a mais humana das ciências, ressaltando assim a vocação de integralidade que permeia a profissão médica.


Se desejo ser de fato um médico humanista, preciso dominar com excelência a ciência, e compreender que todos esses conhecimentos são adquiridos pelo desenvolvimento dos discursos humanos: poética, retórica, dialética e lógica.


E se podemos comunicar, podemos compreender. Se podemos compreender, podemos absorver e transcender, alcançando novos patamares.

Sejam todos bem-vindos à busca pela excelência na vida profissional.




Hélio Angotti Neto é médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo; Especialista em Oftalmologia com Residência pela Universidade de São Paulo, com Título de Especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia; Mestre em Administração Pública pela FGV; e Doutor em Ciências (Medicina) pela Universidade de São Paulo. Atua como Professor de Medicina, Mentor e Coordenador do Curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo (UNESC). É Membro Efeito da Câmara Técnica de Bioética, da Comissão Nacional PRÓ-SUS e da Comissão de Ensino Médico do Conselho Federal de Medicina. É Presidente do Capítulo de História da Medicina da Sociedade Brasileira de Clínica Médica e Grande Oficial das Ordens do Mérito Médico e do Mérito Aeronáutico, tendo exercido a função de Secretário Nacional de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde e de Secretário Nacional de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégico em Saúde no Ministério da Saúde durante a gestão do Governo Federal entre 2019 e 2022. É autor de diversos livros, artigos e capítulos de livros nas áreas de Oftalmologia, Bioética, Ética Médica, Humanidades Médicas, Filosofia e Crítica Cultural. Criador e Coordenador do Seminário de Filosofia Aplicada à Medicina. Também é Presbítero da Igreja Presbiteriana do Brasil e Diretor-Presidente da Unidade Escoteira Local de Colatina, no Espírito Santo.

Link do Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6394379738440524

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